Domingo, 24 de Agosto de 2008

Naquela noite não sonhou.

Naquela noite não sonhou.

Ele abriu a porta de sua unidade, entrou, fechou a porta e jogou sua blusa de frio em cima de uma cadeira, que ficava próxima a porta. Só então acendeu a luz. O ambiente não era dos mais agradáveis, seu apartamento fedia a poeira, mofo e melancolia. Ele não se importava muito com isso. Caminhou até o outro lado da sala e abriu a janela. Observou os carros que seguiam com suas luzes vermelhas nas ruas esburacadas da cidade. O cenário poderia ser melhor. Sua alma também. Sentiu o ar frio e poluído invadindo a sala, fazendo com que os resíduos dançassem por todos os cantos. Estava um bagaço só.
Caminhou até o que chamava de cozinha e abriu a geladeira. Precisava beber para esfriar a alma e aquecer o coração. Queria que a consciência se calasse um pouco. E não topava mais fazer o papel de forte, que enfrenta a tudo e a todos e vai atrás do que quer. Alguns conseguem. Outros não. Às vezes aquilo que se quer, é aquilo de que se precisa, só que o Mundo optou por ajudar os espertos, não os merecedores e ele, possivelmente, estava num meio termo escuro e pegajoso entre os dois. Para quê romance, quando se tem a verdade nua e crua de que não conseguirá o que deseja? Precisava de facilidade. Achava hipocrisia, e falta de senso de realidade, quando escutava alguém dizer que aquilo que se conseguia fácil ia embora fácil. Querer dificuldade é coisa de quem nunca enfrentou o difícil na vida. Simples assim.
Sentou-se em seu sofá com as pernas abertas e os ombros arriados. Na mão um copo com álcool de segunda categoria, que queimava a garganta e o estômago por dias e dias depois de ingerido. Não dava para morar numa mansão daquela e sonhar com bebidas caras. Consumia o que podia comprar. E amor não se pode comprar. Olhou o fundo do poço e pensou nela.
A garganta queimou e pensou mais nela. Não vê-la, não tê-la, querê-la e sentir seus braços se esvaindo em seus beijos desesperados numa nuvem etílica de uma noite perdida e, convenientemente, esquecida. Aquilo era solidão. Escutou alguns tiques dentro de si. Acelerados. Quem diria? Tinha um coração. E, mesmo partido, esse batia. Desligá-lo seria uma boa.
A verdade é que ficar nervoso com a vida, com ela e consigo de nada adiantaria. Mas o que poderia fazer? As dúvidas, o medo, o arrependimento, tudo isso era demais, o desespero por luz só fazia aumentar a escuridão de sua autopiedade. Bebeu e sentiu a tontura lhe bater o cérebro, esta não aliviou, em nada, as coisas estranhas que sentia.
Era cansaço e não adiantava dormir, simplesmente não existia saída para o buraco em que se enfiou. Pensou naqueles que significavam alguma coisa. Talvez se escorasse neles para sair do buraco. Mas era justo? Enfiar-se no nada e arrastar outro consigo? o Mundo deveria ser melhor. Ele deveria ser capaz de gerar um Mundo melhor. Deitou no sofá e dormiu o justo sono dos bêbados.
Naquela noite não sonhou. O dia acordou como todos os outros e sentiu o sangue subir pela garganta. Não chegou a vomitar. Não iria vomitar, estava acostumado demais. Levantou-se. Olhou pela janela e viu os carros. As luzes vermelhas estavam apagas, mas as ruas continuavam esburacadas. Se eles conseguiam, por que ele não conseguiria? Cambaleou até a cozinha, fez um café forte e o tomou fervente. Lavou-se e com uma aparência de quase vida saiu de casa. Ia procurá-la. Não se importava se ela estivesse com alguém. Iria tirar o peso do peito.
Será que chegou a fazê-lo?

FIM.

Por: Caio Guilherme
24/08/2008.

0 comentários: