quarta-feira, 22 de julho de 2009

sábado, 4 de julho de 2009

Adeus

Já há algum tempo que tenho pensado em mudar de blog, nome, endereço e carga. Acredito que estes tenham sido meus últimos textos no Ensaios do Plebeu, mas tudo o que foi escrito aqui nesses últimos anos irá continuar para aqueles que queiram revisitar os textos mais antigos.
Para aqueles que quiserem ler novos textos, deixo o convite para acessar o Blues Literário.

http://bluesliterario.wordpress.com/


Grandes abraços,


Caio

domingo, 28 de junho de 2009

Uma boa manhã.

Uma boa manhã.
28/07/2009

Abriu seus olhos e acordou com a cabeça em chamas, deixando todo o quarto com um insuportável cheiro de cabelo queimado. Tranqüilo ele pegou o vaso que ficava no lado da cama, num pequeno criado mudo, e jogou na cara, apagando o fogo. Para espantar o cheiro ruim, abriu a janela, colocando a cabeça para fora dela e puxando significativas e salvadoras lufadas de ar. Estava novamente são. A carne e os cabelos queimados logo se curaram, devolvendo-lhe o aspecto agradável que desde sempre possuíra e a tantos seduzira.
A neve caia fina e sem graça, tornando aquele um dos dias mais feios que jamais vira. Debaixo da sua janela alguns mendigos dormiam encolhidos, tentando encontrar um pouco de calor. Se era calor que eles queriam, água gelada seria o que ele lhes daria. Andou até o banheiro, estralou os dedos fazendo com que um balde bem grande surgisse em suas mãos e o encheu de água. Levou o balde até a janela e jogou o liquido, que caiu nos mendigos como pequenas facas de gelo, fazendo-os se levantar e sair correndo, lançando palavrões variados e raivosos. Um deles ficou para ver quem tinha jogado a água, mas se arrependeu redondamente ao ver a pele vermelha lustrosa de um sujeito com uma cara cheia das piores intenções, que se materializaram num tchau e num sorriso maroto, que deixou o mendigo corajoso petrificado para todo o sempre.
Cumprida uma das suas principais atividades matinais, ele se espreguiçou lentamente, deixando que o fogo dos infernos saísse de sua boca na hora do bocejo. Tomou seu banho, penteou a barba, os cabelos e, enrolado numa felpuda toalha azul, separou seu terno de trabalho. A roupa era toda branca, com uma gravata tão vermelha quanto a pele dele. Vestiu-se com agilidade e facilidade, terminando de ajeitar a gravata assim que o serviço de quarto bateu a porta lhe trazendo o café da manhã.
Recebeu seus alimentos e não deu gorjeta para a funcionária do hotel, que 9 meses depois teve três filhos siameses, uma paga nefasta pelos serviços bem prestados. Depois de comer suas rosquinha e tomar o café, ele escovou os dentes, abriu a gaveta de seu criado mudo, tirou um carteira, um anel e o colocou.
Sua pasta preta lhe esperava jogada num canto do quarto, a pegou e saiu do hotel, teria muitas almas para comprar e vender.

domingo, 21 de junho de 2009

O fim ou Por mais um momento ou O nome dela
Por: Caio Guilherme

Por um momento todas as suas feridas se fecham e o sangue para de escorrer de sua pele. Por um momento tudo parece bem, a pele não ferve mais, a irritação se foi e a chuva fina para de congelar o coração e a alma. Por um momento, por um único momento, tudo fica bem e ele sente o coração bater feliz. Fogos de artifício, o tempo passando devagar, o beijo que deixa um gosto bom para sempre, um sopro de ar, paz. Se ele estivesse sozinho, teria saltitado e batido os calcanhares em pura alegria. Mas, como estava com ela, se perdeu em sorrisos abobados, mergulhando nos olhos de mil cores, nos olhos da mais pura poesia, que é a mulher gostada.
Por um momento sua mente repetiu o nome dela, Tatiana, Tatiana e tudo parecia certo, porque é o que ele queria. Mas nem sempre os justos tem o que querem, nem sempre aquilo que se quer é o melhor ou vai engrenar e aquele momento, aquele grande momento, aquele eterno momento se apagou, deixando um sabor, a mais pura nostalgia, tal qual um céu estrelado numa noite pura e límpida, daquelas que só se formam depois de uma grande tempestade.
O que viu, o que sofreu, o que precisou aprender, o que precisou deixar para trás, o que precisou superar, o orgulho que teve de aprender a engolir, tudo, todo o sacrifício valeu aquilo, aquele beijo e aquele sorriso, aquele momento em que tudo deu certo, em que tudo parecia certo. Sua mente ainda repetia o nome dela, Tatiana, Tatiana, enquanto, sem perceber, seu coração talvez já fosse se partindo, assim como às vezes sente-se a dor só de ver a maquininha do dentista.
Por um momento houve calor e ele podia dizer com toda a certeza, o calor é bom demais, mas ele passou. Beijava o corpo dela, sentia a língua dela percorrendo sua boca, seu pescoço e preenchendo sua orelha. Quente e úmida, aquilo era tudo o que mais queria no Mundo. Só que a chuva apertou de novo e, como fumaça, o corpo que segurava, o beijo que dava, a mulher gostada, se dissipou pouco a pouco, deixando-o com novas feridas abertas, novas frustrações e dilemas.
Durante sua jornada correu em direção aquele destino, achando que aquele era o fim de tudo, um porto seguro, onde teria uns bons momentos para sentar, respirar e finalmente ser feliz com aquilo que tinha. Mas, as coisas humanas são efêmeras, tolas, rápidas e insatisfatórias e tudo, tudo, tudo que o homem toca, que ele toca, acaba virando fumaça. Aquele ponto de estabilidade, o destino se transformou em mais um pedaço da jornada, um novo ângulo para um novo e mais estranho, maior e mais sofrido caminho. Em frente ao nada, sua sede voltou.
Parou, ali no meio da rua, olhou para os dois lados, procurou-a, chamou o nome dela, Tatiana, Tatiana, e não obteve resposta. Chorou por um minuto, limpou duas lágrimas que lhe escorreram vermelhas e grossas em contraste com a chuva fina e invisível que estava lhe congelando até os ossos.
Ante a solidão e ao silêncio, a não resposta dela, ajoelhou-se no chão, olhou aos céus pedindo por sossego e descanso, levantou-se e seguiu pelo estranho e longo caminho que havia se aberto, tentaria seguir em frente, sem necessariamente ter, querer ou poder fazê-lo...

sábado, 20 de junho de 2009

A cidade nos devora

A cidade nos devora.
Por: Caio Guilherme

Ontem eu quase me meti numa briga de trânsito. E olha que nem motorista eu sou. Atravessei a rua no sinal verde para mim quando um motoqueiro quase me atropelou e, ante ao quase da coisa, me xingou, como se eu estivesse errado. Se, até então, eu não estava – já que atravessei no meu sinal verde – acabei ficando ao lançar-lhe impropérios em dobro e chamá-lo para brigar enquanto ele partia em toda a sua irresponsável velocidade. Até cogitei correr atrás, mas pensei que isso seria barraco demais.
A cidade nos devora é um dos maiores clichês que já disse ou ouvi – embora eu achasse que eu que tinha bolado esse, mas parece que muitos já o usaram também – mas é dos mais verdadeiros também. Poucos dias antes da “briga” de trânsito, mais para o começo da semana, vi uns dois meninos de rua destruindo uma daquelas árvores envasadas no cartório da Augusta, o que me fez pensar: “triste os dias em que os homens se tornam animais.” Triste os dias em que meninos se comportam como animais raivosos, triste o dia em que eu perco o controle e saio gritando como um macaco querendo treta.
Esses foram testemunhos dos efeitos da cidade em mim mesmo e nos outros, a civitas transformando o homem em animal, em um selvagem descontrolado, apolítico, anti-social. Eis o paradoxo, o símbolo da nossa civilidade devorando aquilo que nos faz humanos e civilizados, seja isso o que for. Os carros, o cimento, o barulho, as pessoas me as construções, os produtos de nosso engenho e humanidade acabam por nos tornar mais descontrolados e próximos de animais e só o contato com a natureza – e é dai que vem tantos parques nas grandes cidades – acaba nos devolvendo um pouco da humanidade.
Interessante, não? A dialética mora em todos os lugares.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O homem que matou o homem mau.

O homem que matou o homem mau.
Por: Caio Guilherme

O sangue do homem mau escorreu quase todo pelo buraco feito no estômago. Na verdade, o pouco que não escorreu pelo buraco da barriga, escorreu pela boca em tossidas sofridas, como se ele fosse um sapo e tentasse coaxar uma última canção. Seus olhos estavam inchados e esbugalhados, a arma jazia caída ao lado da sua mão e o dono da funerária já estava preparando sua fita métrica, só esperava que os espasmos parassem, até porque ele não queria manchar a sua camisa branca.
O homem que matou o homem mau só precisou de um tiro para fazê-lo, um tiro que, possivelmente, nunca conseguiria superar, por mais que tentasse, nunca, nunca, nunca, atiraria tão rápido e tão certeiro quanto naquele dia. Por mais que praticasse ele só seria uma sombra do que tinha sido nesse último duelo e o jeito que ele coçava a cabeça deixava bem claro que ele sabia que estava acabado. Não que fosse algo ruim, acabar no auge, se aposentar, pegar a mocinha, casar e ter uns filhos criados com os animais do rancho. O problema era, a sede, a falta, a vontade e o clamor. O calor daquele momento era sem igual, quando viu o homem mau caindo assassinado pelo seu tiro sentiu um êxtase que o levou às alturas e depois quase o fez se sentir tão mau quanto o homem mau.
Mas ninguém era tão mau quanto o homem mau e, com sorte, ninguém tentaria vingá-lo, embora o futuro a Deus pertencesse. O homem que matou o homem mau pegou a mocinha pelo braço e partiu para o quartinho de hotel onde morava, jogando-a sentada na cama enquanto ele arrumava as malas desesperadamente. Queria ir embora antes que alguém viesse com alguma proposta irrecusável e que depois de inúmeras recusas acabaria levando-a para a morte. Na pressa, o homem que matou o homem mau olhou direito para a mocinha, os cabelos despenteados brilhando ante a luz de tungstênio, o suor nascendo na testa e escorrendo pelo corpo até morrer no colo dos seios, estes tão arfantes e quentes que fazia com que o suor evaporasse em uma leve camada de fumaça. As faces dela, tão brancas e tão vermelhas, a boca carnuda que deixava escapar um gemido de emoção, os braços macios e as pernas enormes faziam com que o homem que matou o homem mau não pudesse ir embora tão cedo. Tinham que comemorar.
A mocinha sorriu com seus dentes limpos e brilhantes e se esparramou na cama quando viu o homem que matou o homem mau largando a mala e deixando as roupas por arrumar. Possivelmente ele nunca iria atirar tão rápido quanto daquela vez em que matou o homem mau, mas ainda tinha as mãos rápidas o bastante para se despir e despir a mocinha em segundos.
A noite nasce, morreu, o agente da funerária já havia arrancado os dentes de ouro do homem mau e enterrado o pobre vilão e a porta do quarto do homem que matou o homem mau não se abriu. E dias se passaram assim.
Até que o dono do quarto em que dormia o homem que matou o homem mau abriu a porta e se deparou com este todo retalhado, nu, morto e sujo de sangue. Ninguém nem encontrou sinal da mocinha, que sumiu para nunca mais ser vista.
E até hoje por aquelas bandas contam a história da mocinha que matou o homem que matou o homem mau....

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Por um código de Ética

Por um código de Ética

Ando vivendo em momentos tensos, em que minhas concepções se mostraram cansadas e defasadas em relação aos novos ares desses novos e velhos tempos. Estranho quando tudo o que em você se pauta demonstra ser atrasado e ineficiente e aqueles que se deixam levar por essa deprimente e vulgar maré dos dias de hoje se dão tão melhor. Pensei, pensei e pensei e acabei me decidindo que o importante é encher a pança, gozar e ganhar, não importando as consequencias.
Mas não é isso o que quero e embora vá acabar indo dormir todos os meus dias triste, vou parar tudo, ignorar esse sopro que me empurra para esse tempo leviano e vou voltar a seguir meu ultrapassado e inútil código de ética, sem me deixar guiar pela necessidade de ganho e “deixa para lá” para o qual os outros vinham me levando.
Vou me arrepender, mas talvez assim eu perca esse gosto barato na minha boca e minha consciência pese menos. Claro, por que não?

Sonhar também é importante.

Estipular regras, códigos e ditos, seguí-los não importa a dor, tal como um estóico, calar a boca e suportar, o corpo é só um conjunto de carne quente, sangue e ossos, o sabor é só uma distração para o ato da nutrição, o gozo é só uma ilusão para nos incentivar ao coito, o saber é só uma mentira para nos distanciar dos animais e o o efêmero é só uma desculpa para não assumirmos nossas fraquezas e dizermos que estamos aproveitando a vida, como uma desculpa para o que há de pior.


Calar a boca e seguir vivendo pelos meus parâmetros. No fim, eles valem a pena.